Pesquisa clínica sob a ótica da Anvisa: perspectivas, prioridades e desafios regulatórios
- Inovatie

- 14 de nov.
- 4 min de leitura

Durante o CRMeeting 2025, o especialista da Anvisa, Claudiosvam Martins Alves de Souza, apresentou um panorama abrangente sobre os avanços, prioridades e desafios regulatórios da pesquisa clínica no Brasil, destacando o papel da Agência na promoção de um ambiente cada vez mais seguro, ágil e alinhado às boas práticas internacionais.
A missão regulatória: garantir segurança, integridade e eficácia
A Anvisa exerce papel central no ecossistema de pesquisa clínica, atuando na análise de dossiês e documentação técnica, inspeções em boas práticas clínicas (BPC) e monitoramento de segurança dos estudos — com o objetivo de garantir a proteção dos participantes, a integridade dos dados e a confiabilidade científica dos resultados.
Essa atuação é essencial para que novas tecnologias em saúde sejam disponibilizadas à população com segurança, eficácia e qualidade comprovadas.
Evolução histórica e marcos regulatórios
A trajetória da regulação de pesquisas clínicas no Brasil reflete um movimento global de aprimoramento ético e técnico. Desde o Código de Nuremberg (1947) e a Declaração de Helsinque (1964), passando pela Lei nº 6.360/1976, que instituiu o controle sanitário de medicamentos e produtos sob vigilância sanitária, até a criação da Anvisa em 1999, o arcabouço regulatório evoluiu para incorporar padrões internacionais e fortalecer a proteção dos participantes.
Entre os marcos mais recentes, destacam-se:
RDC nº 9/2015, que consolidou avanços na condução ética e científica de ensaios clínicos;
RDC nº 205/2017 e RDC nº 204/2017, que introduziram priorização para pesquisas em doenças raras e negligenciadas;
Lei nº 14.874/2024, que modernizou o ambiente regulatório da pesquisa clínica no país;
RDC nº 945/2024, que regulamentou de forma detalhada os novos procedimentos para submissão e análise de estudos clínicos.
RDC nº 945/2024: modernização e celeridade nos processos
A RDC nº 945/2024 representa um marco na modernização regulatória da Anvisa. Entre seus principais avanços, destacam-se:
Análise otimizada com base em confiança regulatória (regulatory reliance) — permite que estudos previamente avaliados por seis agências de referência internacional tenham uma análise mais célere no Brasil, reduzindo duplicidades e promovendo convergência internacional.
Análise baseada em risco — possibilita simplificação do processo para estudos com medicamentos já registrados, associações em dose fixa ou inovações incrementais, com redução de exigências técnicas (como partes do IMPD e brochura do investigador) quando houver dados de segurança consolidados.
Prazo máximo de 90 dias úteis para conclusão das análises, válido tanto para petições primárias quanto secundárias, com aprovação tácita por decurso de prazo.
Possibilidade de inspeções internacionais em BPC, ampliando a capacidade de monitoramento e harmonização de padrões.
Antecipação do documento de importação de insumos clínicos, permitindo o início de importações em até 30 dias após a submissão do DDCM.
Previsão de submissão contínua de documentos, mecanismo já testado durante a pandemia de COVID-19, e que deve ser aprimorado nos próximos ciclos regulatórios.
Essas medidas visam agilizar o início dos estudos clínicos, reduzir gargalos administrativos e estimular a realização de pesquisas no território nacional.
Perspectivas e prioridades regulatórias para 2025–2026
De acordo com Claudiosvam, a Anvisa pretende aprofundar sua atuação estratégica em três grandes frentes:
Apoio à inovação e ao desenvolvimento nacional — fomentando a interação com universidades, startups, centros de pesquisa e órgãos públicos, e promovendo a ciência regulatória aplicada.
Aprimoramento dos caminhos regulatórios para tecnologias de fronteira, como medicina de precisão, terapias avançadas e vacinas terapêuticas, com diretrizes específicas para ensaios clínicos descentralizados e desenhos adaptativos.
Centralidade do paciente — incorporar a perspectiva do participante de pesquisa nas decisões regulatórias, fortalecendo uma cultura de pesquisa clínica mais ética, empática e orientada ao paciente.
A publicação da RDC sobre Programas Assistenciais (acesso expandido, uso compassivo e fornecimento pós-estudo) também figura entre as prioridades da agenda 2025, após já ter passado por consulta pública.
Desafios institucionais e tecnológicos
Entre os principais desafios identificados, destacam-se:
Recomposição da força de trabalho e da diretoria colegiada, fundamentais para viabilizar novas contratações e manter o ritmo de análise.
Ampliação das inspeções em boas práticas clínicas, inclusive em centros internacionais.
Digitalização de processos — com destaque para o desenvolvimento de formulários eletrônicos de submissão, integração de sistemas e uso potencial de inteligência artificial para análise e monitoramento de estudos.
Capacitação contínua das equipes técnicas frente ao crescimento de áreas como biossimilares, estudos com dados do mundo real (real-world data) e medicina personalizada.
Fortalecimento da confiança regulatória internacional (release), evoluindo de um modelo unilateral para um sistema efetivo de intercâmbio de informações com outras agências.
Apesar das limitações de pessoal e estrutura, a Anvisa segue atuando de forma ininterrupta, mantendo a análise e o monitoramento de ensaios clínicos e consolidando um ambiente regulatório cada vez mais previsível, técnico e convergente.
Um olhar para o futuro
A fala de Claudiosvam reforça o compromisso da Anvisa com a inovação responsável, a transparência regulatória e a proteção dos participantes de pesquisa.
Os avanços recentes — especialmente a Lei nº 14.874/2024 e a RDC nº 945/2024 — representam passos decisivos para o fortalecimento da pesquisa clínica no Brasil, alinhando o país aos padrões internacionais e promovendo um ambiente mais propício ao desenvolvimento científico e tecnológico.
Blog elaborado com base na palestra “Pesquisa clínica sob a ótica da Anvisa: perspectivas, prioridades e desafios regulatórios”, proferida por Claudiosvam Martins Alves de Souza, Coordenador da Coordenação de Pesquisa Clínica em Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa, durante o CRMeeting 2025.



Comentários